Vasos chineses se quebram, sim se quebram, assim como copos de cristal, ventiladores de teto, discos e etc. Pessoas nunca, a não ser quando esquecem de olhar os dois lados. Mas emocionalmente falando, não. Quem sou eu pra dar pití na sua fossa? Ninguém. Você levou um tombo e tanto, e pronto. Se machucou, ok. Dói, eu sei. Perdeu sua capacidade de amar, verdade. Ou não. Não existem verdades, apenas versões, na minha versão.
Sei bem como funciona, quantas vezes já fui dispensado do meu amor. Muitas. Quis quem não me quer, amei quem enganava, compartilhei unilateralmente, acreditei no sonho hollywoodiano, me quebrei, levantei, desisti, contei mentiras, interpretei. Parece propaganda de telefone celular estrelada pelo Fábio Assunção, mas é só minha versão daquele trânsito caótico de um amor para outro.
Você não se quebrou, eu não me quebrei. Nascemos com a disposição natural para o amor. Falo por você e eu. Sim, não conseguimos imaginar viver sem, sentimos saudade, choramos, compramos discos e livros por impulso, atravessamos sábados com calças moleton revisando filmes melancólicos - alguns favoritos são "Um Beijo a Mais" ou "A Vida é Bela", produções italianas, terra de gente que ama até demais.
Bem, como gosto disso de sofrer com pé na bunda, resolvi amar de novo, a contragosto, paladar típico de um desistente. Cafés da manhã românticos, passeios de mão, festas em família, palpites de sogra, distribuição de beijos e mordidas em pezinhos pequenos. Viajamos pelo mundo sem sair de casa. Sabe quando o gostoso de tudo se estende ao sono abraçadinhos? Pois é. Além de clichê, um prato cheio pra quem quer, mais uma vez, sair com a impressão de que o amor é o diabo com a garganta cortada ou um cão feio e raivoso.
Você continua apta e aberta ao amor. A sede não seca. Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pretensão sua achar que se fechou, que pode decidir, dirigir sua vida. Demita sua consciência analista e olhe pros dois lados. Você só está perpetuando sua primeira experiência sobre o fim, cristalizando a primeira lágrima que caiu, como se tudo aquilo que acabou fosse realmente grande, infinito, definitivo.
O amor te feriu como fere uma flecha sem velocidade e impulsão. Ela cai no chão, você junta e enterra no próprio peito. É pena que quer despertar no outro, no próximo, no amado que se foi? Ninguém tem pena de você. Basta nascer para começar a sofrer, tudo é impermanente, não se iluda. O amor é gasoso, invisível, lendário, metafórico, um sonho. E como todo sonho não é sólido, não pode ser cadeado em algum outro lugar que não o coração.
Seu coração não quebrou, pelo contrário, é única coisa que ficou intacta. Ele está lá, esperando por outro. Como o meu, que pulsa melhor que antes. Um dia vou despertar e voltar a me abraçar com a solidão, estou sabendo. Por hora, não. Amanhã. Hoje, sigo sorrindo, chantageado pela minha versão atual. Toda manhã meu sonho acorda dentro de outro sonho.
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