
Essa música é parte integrante do texto: O Velho e o Moço - Los Hermanos
Feito gari, visto uma roupa de cores vivas pois é dia de mergulhar em tudo que hoje é cinza. A cada várias estações, resolvo revirar caixotes, fundos de gavetas, topos de armários e outras alcovas abertas por gente que ficou pra trás. Não sei do porvir da escavação, mas intuo sobressaltos, perturbações, pasmos, poucos sorrisos, algumas dores e uma pilha de planos que inventei pra dividir com alguém tantas mentiras. Relendo tantos bilhetes adulterados com o amarelo do esquecimento, nem o Paul McCartney me convence que amar não passa de um vislumbro mental momentâneo.
De cara, um tênis novo e tão velho ao mesmo tempo. Promessas feitas a punho delineando corações que hoje batem por mera teimosia. Uma fotografia põe em foco todos os 64 dentes de uma alegria congelada que se derreteu rapidamente em invernos frios além do termômetro. Outra me faz reconhecer um rosto de onde eu só lembrava das nuances dos cabelos pretos. Imagens tão coloridas representam o que agora não passa de papel fotográfico em branco. Amor de carne que me encheu de osso.
Andei lendo as cartas antigas e deu saudade do tempo que eu não sabia me expressar e escrever. Tantas sílabas amorosamente encaixadas em superfícies de cores que gritam tão baixo. Uma, difícil de desatar, revela versos fáceis de engolir e impossíveis de digerir. Cartas marcadas pro resto da vida, mostrando que de nada serve ter a sinceridade nas palavras sem a honestidade nas ações.
O fim da minha busca pelo êxtase é o encontro com uma epifania. Por que, alguém aí, a gente só é seduzido pelo que é urgente e irreal? Por que tão só o novo é tão admirável, excitante e movente? Por que é tão confortável estar submerso em borbulhante desilusão? Perguntas ressuscitam a cada massagem no peito tão hospitaleiro da dor por uma separação que morreu de velha. Me dou conta que a linearidade da rotina foi a melhor e pior fase dos meus namoros. Depende de que lado se vê, se está. A tal relatividade. Einstein.
Sem respostas, o ex-amor se torna do tamanho do meu esforço pra esquecer ou então acreditar que ele realmente existiu. Esses restos e entulhos a gente sempre demora pra limpar, foram estocados no lugar mais alto, onde sempre mereceu estar. Até aceitá-los como momentos de fundo falso. Tão difícil e tão necessário revisitar o mau passado depois de guardar tantas horas um lugar na fila à espera de uma ligação, um sms, um sinal, um milagre que nunca aconteceu. Na ausência se vê todas as verdades.
Esse texto é dedicado a...
Bom dia.
me identifico. sem mais.
ResponderExcluirÉdica.
Já disse que esse é o meu texto "preferido". rs
ResponderExcluirFicou mto bom...